quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Tarifa Zero em Agudos, SP

23/11/2011

por Alice Wakai e Henri Chevalier

Há dez anos, Agudos, uma pequena cidade ao lado de Bauru, interior de São Paulo, colocou em prática um projeto ousado. O transporte coletivo passou a ser gratuito, com a finalidade de facilitar a mobilidade dos quase 35 mil moradores para qualquer bairro, escola, trabalho, comércio ou serviço que desejassem. Nessa entrevista, José Carlos Octaviani, prefeito de Agudos na época e atual secretário de Obras, explica como implementou a Tarifa Zero na cidade, as dificuldades encontradas e a reação popular com a gratuidade do transporte.
Como surgiu a proposta dos ônibus “de graça” em Agudos?

Octaviani: Em 2000 eu disputava pela segunda vez a eleição para prefeito de Agudos. E nós tínhamos uma empresa que trabalhava há quase 20 anos aqui. Lamentavelmente, o serviço estava sem qualidade. Era uma empresa concessionária da cidade. Primeiro morreu um proprietário, depois morreu o outro e os herdeiros começaram a ter uma dificuldade grande para gerir o sistema.
Alice: Que tipo de “falta de qualidade” você se refere?

Eles não conseguiam cumprir horário, acabava combustível no meio da rua, quebrava ônibus.  Às vezes você pagava pela passagem, andava quatro quadras e acabava o combustível. Era uma situação delicada e as duas viúvas, coitadas, não tinham como tocar. O transporte... não tinha condições. Colocava em risco inclusive a segurança das pessoas. Então meu companheiro de chapa, candidato a vice na época, e mais alguns amigos, sugeriram que a gente colocasse na cidade o transporte gratuito urbano. Eu achei uma loucura quando me falaram. Achei uma loucura. Mas aí eles me convenceram através de estudos, números, que depois fui conferir. Os números que me passaram eu fui conferir, na época, na ECCB – Empresa Circular da Cidade de Bauru – e também na Viação Mourão, em Lençóis Paulista. E pelos números apresentados eu via que era perfeitamente possível implantar na cidade. E eu coloquei no nosso jornal de campanha. Se vencesse a eleição, eu colocaria ônibus de graça para a população. Meu Deus, porque que eu fiz isso? Não trouxe sequer um voto, mas tirou um montão. As pessoas não acreditaram. “Uma ideia de louco”. Aliás, pelo contrário, as pessoas diziam que era falta de projeto político, que isso não existe. “Ônibus de graça não existe, é coisa de incapaz”. Tomei tanta paulada, fui tão criticado... mas o material já estava na rua, não tinha mais como voltar atrás. Confesso que se eu pudesse não ter colocado no jornal, não colocaria, tudo bem... mas como já tinha colocado, eu tomei um pau danado. As pessoas não acreditavam. E para convencer a população de que era possível aquilo? Era muito complicado. Mas quis Deus que eu disputasse a eleição e chegasse ao fim dela como vencedor. Com uma diferença muito pequena, mas ganhei. E logo em seguida implantei o ônibus gratuito na cidade, como tinha dito que faria. Aí foi uma festa só. Ao apresentar os ônibus no aniversário da cidade – não lembro se foi no aniversário da cidade ou no desfile de sete de setembro, mas foi alguma coisa assim –, você não tem ideia da reação. Foi em um desfile, não me lembro em qual dessas duas datas. Sabe o que é uma cidade inteira reunida na rua principal e, quando apresentávamos a frota que já tínhamos comprado naquele primeiro ano, as pessoas batendo palma para ônibus? Já viu uma coisa dessas? Foi uma coisa incrível. Tenho fitas, fotos. Me arrepia. Foi emocionante ver a população. Hoje você pode pegar esse ônibus às cinco horas da madrugada e descer dele à meia-noite, não tem nenhum problema. Pode rodar o dia inteiro de graça nele se quiser. Lamentavelmente a gente fica triste porque algumas pessoas não sabem usar. Destroem veículo, como também destroem ônibus em Bauru, onde pagam. Riscam ônibus, cortam. Aquela falta de educação, falta de compostura, falta de dar valor naquilo que é dele. Quem tá usando ônibus? É ele! O ônibus é dele também... É meu também, embora eu não esteja usando ônibus. Então eu digo que foi uma loucura que eu fiz porque o gasto que dá para a prefeitura hoje é grande. Mas a população se serve bem porque deixa de pagar cerca de 120 ou 130 reais por mês, com transporte coletivo, dá para o cidadão condições de uma vida melhor, de comprar uma blusa, um sapato, um tênis, um remédio para o filho, uma alimentação melhor. Então a prefeitura banca esse sistema gratuito. E se falar em tirar daqui a população vai se revoltar.
O que viabilizou o sistema?

Fizemos uma consulta de quantos pneus gastaríamos por ano, quantos mil litros de combustível, quantas peças, revisão, limpeza, manutenção. Quanto gastaria com motorista. Essa foi a preocupação, o tamanho da nossa despesa. E depois, tendo consultado o pessoal da ECCB, que trabalhava com o sistema de transporte de concessão em Bauru e também a Viação Mourão em Lençóis Paulista, os dados batiam e me convenci dessa possibilidade. E depois coloquei no jornal, porque ninguém acreditava. Agora, eu acredito que a maioria da população aprove os ônibus porque até aquele que não usa os ônibus pode se beneficiar deles. Vamos supor que você tenha uma empregada na sua casa, que cuida da sua casa. Você tem que pagar vale-transporte para ela. Então até aquele que não usa o ônibus, mas tem uma empregada, um empregado na sua casa é beneficiado indiretamente.
Qual era a frota inicial e qual a atual?

A frota inicial da prefeitura era de oito veículos. Hoje são quatorze, o prefeito comprou mais seis. Nós vamos dispor de alguns desses que já ficaram mais velhos, para ir renovando a frota. Porque o desgaste das peças é muito grande, então compensa comprar mais novos.
Você sabe quanto a demanda aumentou?

Antes do transporte gratuito havia mais ou menos um terço do que existe hoje de pessoas usando ônibus. Aumentou.
Teve algum estudo anterior, como por exemplo, da topografia, para que estabelecesse se o gasto ia ser muito caro ou não? Se seria viável? Porque tem alguns estudos que dizem que quando o trajeto é em subida, o ônibus gasta mais peças pela embreagem, na descida gasta mais pela frenagem... Teve um estudo técnico?

Sim, inclusive o consumo de combustível aumenta em pico, subida... não é só freio não, combustível gasta bem mais. Eu não tenho agora os dados, o pessoal que cuida disso está lá embaixo (no andar de baixo), mas eles têm na planilha os gastos mensais, quantos mil litros de combustível, quantos motoristas estão à disposição. É difícil eu perguntar para a população de usuários o que eles estão achando do ônibus. Eu fazendo essa pergunta para as pessoas fica mais difícil. Mas eu convido vocês a irem a alguns pontos de ônibus, andarem em linhas e perguntar se representa economia, se o pessoal está usando de acordo ou não. Se ajuda. Confesso que eu não tenho usado. Já fiz pesquisa? Já fiz. As pessoas apontam uma aprovação muito boa. Mas se eu perguntar vou tirar a liberdade das pessoas. Como vocês são de fora, as pessoas vão sentir mais liberdade.
Quando começou o projeto?

2001 ou 2002. Já faz dez anos e minha cachola não funciona direito...
E teve alguma mudança no sistema ou ele é o mesmo até hoje? O que deu certo e o que não deu certo?

No percurso? A maioria do trajeto tem sido mantida. Mas às vezes tem pontos que por sugestão da população sofrem alterações. Por exemplo, a parada do ônibus. O que a população reclama, nós vemos se é melhor mudar. Reclamam que tem gente que fica falando bobagem em um ponto, provocando alguém... ou então o ponto fica perto da garagem do cara e quando ele quer estacionar o carro tem ônibus no portão. É mais questão de educação. A maioria das pessoas são boas, mas tem outros, os engraçadinhos, que criam aborrecimentos.
Quantas pessoas usam o transporte?

Acredito que entre as pessoas que vão e voltam, te falo um número não muito exato, são de 10 a 12 mil pessoas, ou viagens.
A topografia de Agudos é mais plana?

Não, não é parecido com Bauru. A topografia é irregular, tem subidas fortes, baixadas.
As linhas ligam todos os pontos a todos os pontos da cidade? As pessoas vão para onde querem?

Para onde quiser. Você tem que parar na rodoviária e pegar outro, tudo de graça.
Tem uma idéia de quanto era a tarifa na época?

Não lembro, sinceramente. Faz muito tempo. Mas uma passagem de ida e volta em Agudos, normalmente era o mesmo preço de Bauru. Mas por que aqui o trecho de viagem era menor do que os trechos de Bauru e o preço era o mesmo? Porque a população que usa lá é um número muito maior do que aqui. Então, para compensar, o preço era equivalente ao de Bauru, que era caro para a cidade. Eu entendo que a passagem de Bauru poderia ser menor (atualmente é R$2,40), mas todas essas cidades estão nessa faixa de preço. Mas não tem que ser necessariamente esse preço. Você vê que em Bauru não tem bilhete único, você tem que pagar por todas as passagens. Precisaria de bilhete único. Mas é uma polêmica, pode criar um puta problema com o dono da empresa.
Como o sistema de transporte é mantido? Existe um fundo, um dinheiro em caixa da prefeitura? A questão do transporte representou um gasto a mais pra prefeitura. Teve alguma taxa, algum imposto?

Nós fizemos uma reserva no orçamento do município pra compra dos ônibus e pra manutenção. Nós aqui não temos a sede de cobrar impostos. Mas foi feita uma melhoria na arrecadação do município, uma arrecadação que não foi feita por impostos. Se os impostos pra mim são caros, imagina pra empregada doméstica, ou pra quem corta cana. Reduzimos, pelo contrário em 30% os impostos. Fui prefeito oito anos e nunca reajustei os impostos. O que eu faço é pra conquistar o povo. Meu sobrinho (atual prefeito), mais dois anos sem reajustar. Então não aumentamos, pelo contrário. O que aumentou foi o faturamento do empresariado. A Brahma e a Duratex, são algumas das maiores empresas que estão em Agudos. Quando a empresa vê que vai produzir mais ela também paga mais impostos.
Se compararmos a situação de Agudos com outras cidades, vemos que Agudos é privilegiada. Em outras cidades não há empresas assim...

Agudos é conhecida pela boa água. Empresas procuram vir para cá.
Você acredita que seria viável o transporte coletivo gratuito em Bauru?

Boa pergunta. Vou disputar a eleição em Bauru. Algumas pessoas me perguntam: “Carlão você vai trazer o ônibus gratuito pra Bauru se for prefeito?” Se eu falar que sim, a população me daria muito voto. Mas eu não posso agir de forma irresponsável, entendo que seria descabido, inoportuno, e que Bauru não suportaria bancar o transporte coletivo pra população de forma gratuita. Não agora. Não posso assumir compromissos impossíveis, é um desrespeito. E fora a vergonha. Imagina passar na rua depois e encontrar você em alguma festa e ficar evitando você? Tudo por causa de promessa não cumprida? Muita gente em Bauru pensa que porque em Agudos tem, em Bauru também teria. Eu não seria louco de dizer uma coisa dessa natureza. Em Macatuba e Piratininga também é de graça. Três cidades ao lado de Bauru. Essas duas colocaram ônibus gratuito depois de Agudos, Piratininga mais recentemente. São cidades pequenas, mas os desafios não são tão menores por causa disso. Não posso afirmar que em Bauru também será de graça. O que eu acho que é possível fazer, apesar da resistência, é com que Bauru tenha bilhete único. Vou enfrentar um pau danado. As empresas bancariam os meus adversários. Mas vou ver se dá. Gosto de conferir e “reconferir” antes de falar, porque é a minha palavra que está em jogo.
Existe uma movimentação na Câmara de Bauru, principalmente do vereador Roque Ferreira, pra viabilizar um Fundo para o Transporte. Como você vê isso?

Veja só, é muito simpático concordar com isso. Muito mais alguém que é candidato a prefeito na cidade vizinha. Mas temos que ter cuidado. Não arriscaria dizer que seria possível. Seguraria a tarifa, que é um preço abusivo. As empresas estão mais ricas, tendo um lucro exorbitante. O que dá pra fazer é o bilhete único, mas isso não é pondo dinheiro público e sim segurando na marra. Imagina o prefeito falar que iria ter bilhete único em Bauru? Imagina a resistência das três empresas, que são do mesmo dono?
Como você vê a importância de um transporte coletivo pra uma cidade? Por quê?

Fundamental importância. Veja só, olha o número de carros. Essa semana eu li que, por dia, Bauru recebe mil novos carros. O trânsito de Bauru está caótico hoje. Com o crescimento, melhora de emprego, o seu sonho é primeiro o carro e depois a casa. Mas se nós tivéssemos um meio de transporte mais adequado você deixaria o carro na garagem. Esses dias vi uma matéria sobre pessoas que vendem o carro e usam o táxi. Fizeram as contas com combustível, IPVA, seguro, licenciamento etc., e dizem “eu vou muito mais rápido e acomodado de táxi”.
O que nós observamos em São Paulo e em Bauru, assim como em muitas cidades, é uma pessoa em cada carro. Há uma falta de coletividade.
É verdade. Às vezes você pensa: “vou levar o vizinho”. Mas daí o horário do vizinho não é o mesmo que o meu e o lugar aonde ele vai é diferente. É complicado, mas se você tem um transporte eficiente, melhora o conjunto. O metrô em são Paulo, por exemplo, o trem bala Campinas-Rio. Se der certo, amanhã podem fazer Campinas-interior. Investidores estrangeiros poderão fazer uma linha desse porte, ou até mesmo empresas brasileiras. Os cofres do Brasil não podem bancar pra uma empresa vir e explorar. E enquanto falta investimentos na área de saúde, importante dizer, o Brasil é o país do futebol. Tem obras para a Copa. Você quer que o Brasil sedie a Copa? É bacana, legal. Mas não é bacana ver pessoas morrer em corredores de hospital.
É a questão de o Estado assumir a responsabilidade do que é público e não terceirizar. Foi o que Agudos fez, pegou o transporte e transformou em coletivo público.

É. Eu concordo com o Roque nisso. Ainda bem que o mundo teve tantos gênios da humanidade, como Santos Dumont, que não tiveram medo, não mediram esforços, foram ousados, atrevidos. E hoje a humanidade goza desses benefícios. Eu sou medroso do que eu não posso honrar.
Caso ganhe as eleições quais suas políticas em relação ao transporte?

Segurar as tarifas.
E como quebrar a hegemonia que existe em Bauru? A partir do poder público?

Bauru irá enfrentar resistência grande. Eu abriria mais licitações pro transporte coletivo. Eu tenho a informação de que as três são do mesmo dono, talvez não no mesmo dono, mas em família. É preciso trazer outras empresas pra participar. Vamos imaginar o seguinte: sou prefeito hoje, existem as três empresas do mesmo dono, que é você. E eu não quero mais só você. Você pode participar também dessas novas linhas que serão abertas, mas tem outras empresas concorrendo. Mas aí vem o outro e cobre o seu lance e ganha pra entrar. Você recorreu, vai encher o saco muito tempo, vai dificultar o máximo possível. Mas tudo dentro da lei, você tem que respeitar. Depois que ele entrou você tem três linhas. Você deu lance de um milhão, ele deu de um milhão e meio. “Quer saber, esse cara fica me enchendo saco aqui...vou dar dois milhões pra esse cara sumir”. Também tem isso. Fora aqueles malandros que abrem empresas de fachada e começam a negociar pra pegar dinheiro e sair fora... Tem que fiscalizar essas coisas. Então é abrir concorrência e fiscalizar a atuação.

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