terça-feira, 20 de julho de 2010

Há 32 anos ônibus vestiram Saia e Blusa em São Paulo



ter, 20/07/10 por milton.jung | blog

No governo Olavo Setúbal foi feita a primeira padronização de pinturas em ônibus de São Paulo. A implantação do sistema causou confusão mas deixou legado à capital paulista. As mudanças se iniciaram em 1978.
FOTO 1 SAIA E BLUSA
Por Adamo Bazani
Uma das marcas da administração Olavo Setúbal (agosto/75 a julho/79), na capital paulista, foi a atuação no transporte de passageiros. Em época na qual o prefeito era nomeado pelo Governador do Estado, ele foi considerado um homem à frente de seu tempo. Muito mais que ações pirotécnicas, que só servem para ganhar eleição ou chamar a atenção da mídia, Setúbal e sua equipe tomaram medidas que alteraram a forma de se transportar passageiros na cidade. Algumas ações não foram consideradas ideais, masresolveram em parte as necessidades urgentes de deslocamento numa cidade que só crescia.
Primeiramente, se destaca o Plano Sistran – Sistema Integrado de Trólebus – que teve como um dos principais maestros o engenheiro Adrianno Branco. O Sistema previu não apenas o aumento do serviço de ônibus elétrico como criou uma nova geração desses veículos. O projeto inicial contemplava a criação de mais de 280 km de linhas de trólebus que se somariam aos 115 km já existentes e elevaria o número de veículos urbanos de tração elétrica para 1.280 ônibus. As exigências do Sistran fizeram a indústria nacional, em parceria com a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos -, desenvolver um novo trólebus, baseado nos conceitos mais modernos adotados, principalmente, na Europa.
Foi até mesmo importado um trólebus alemão, Mercedes Benz O 305, para ser dissecado e estudado a fundo. Nascia assim, para todo o Brasil, um ônibus elétrico com sistema Copper, de controle eletrônico de velocidade por recortadores, piso mais baixo, direção hidráulica, melhor iluminação interna  e disposição dos bancos para o conforto dos passageiros, suspensão pneumática e portas mais largas.
Veja o que pode ser feito quando há vontade e sensibilidade política em relação aos transportes públicos. A iniciativa de uma cidade, no caso a de maior destaque econômico do País, fez com que fossem alteradas as formas de transportar em todo o território nacional.
O problema dos trólebus estava parcialmente resolvido, pelo menos encaminhado. Restava o sistema de transportes municipais. Linhas sobrepostas em detrimento a regiões de pouca demanda e de difícil acesso, sem oferta de transportes adequada. Lotações, ônibus velhos, excesso de empresas e falta de serviços. A cidade cresceu de forma desorganizada e os transportes também.
Em 1978, a equipe de Setúbal tenta reorganizar os transportes. Surge a primeira padronização das cores pela qual a parte de baixo dos ônibus (chamada de saia) indicava a região a ser servida. A cidade foi divida em 23 lotes operacionais. Bom para grandes empresários, que encampavam as viações menores. José Ruas Vaz, o maior transportador de São Paulo e dono da encarroçadora Caio, desde 2001, foi um dos grandes beneficiados na época. Mas, como nada se dá do dia para a noite, o início do sistema Saia e Blusa gerou muitas confusões entre usuários e até mesmo funcionários de empresas de ônibus.
Não seria possível padronizar todos ônibus de uma só vez. Então, foi um festival de veículos de uma mesma viação com cores diferentes. Por exemplo, o Grupo Gatti, de Luis Gatti, que fundou a Viação Gato Preto nos primórdios dos transportes por ônibus em São Paulo, tinha várias empresas: como a Trancolapa S.A, a Empresa Auto Ônibus Anastácio, a Empresa de ônibus Vila Hamburgueza, entre outras. Cada uma tinha uma cor diferente. Todas tiveram de se unir na Viação Gato Preto. Por mais que os serviços de funilaria e pintura não parassem, era impossível pintar toda a frota.
FOTO 2 SAIA E BLUSA
O mesmo ocorreu entre viações diferentes. Para não repassarem totalmente seus serviços a empresas maiores, como havia proposto o poder público, os então proprietários da Viação Tupinambá e da Viação São Benedito fizeram uma espécie de acordo com a Transportes Urbanos Piratininga (TUPI).
“Quando da implantação dos sistema do saia e blusa, os antigos proprietários da Viação Tupinambá e Viação São Benedito entraram como uma espécie de sócio na TUPI, quero dizer, para que eles não perdessem as suas linhas que, obrigatoriamente, a CMTC, a gestora na época, passaria, como passou, para a TUPI, fizeram “contrato de gaveta”, mantendo-se assim como donos das linhas. Quem não levou esta sorte foi a Viação Cidade Leonor” – explica o pesquisador Mário Brian, em discussão num grupo especializado sobre história dos transportes.
Assim, ônibus nas cores da Tupinambá e São Benedito eram operados já com a razão social da TUPI.
De acordo com moradores mais antigos da cidade de São Paulo, naquela época, algumas empresas de ônibus chegaram a ter três pinturas diferentes: a mais antiga, uma recém-adota por conta própria, antes da reorganização do sistema Saia e Blusa, e os padrões adotados a partir de 1978.
Exemplo foi a Empresa Auto Ônibus Alto do Pari. Alguns ônibus do modelo Caio Jaraguá circulavam com o tradicional verde e creme; outros, Monoblocos Mercedes Benz O 352, com uma pintura estilo metálica, e os Caio Gabriela, mais novos, com os padrões da reorganização dos transportes por Olavo Setúbal.
Outro pesquisador, Bento Júnior, afirma que a Viação Bola Branca, rodou no início do sistema Saia e Blusa com alguns Caio Gabriela II que tinham sido encomendados pela então extinta Viação Campo Belo, nas cores desta última empresa. Aliás, as confusões eram maiores nesses casos, quando as empresas acabavam de comprar veículos mais novos, com pinturas diferentes das tradicionais, e tinham de repintá-los no novo sistema ou repassá-los para operadoras maiores, que não tinham tempo de alterar seus desenhos.

Fotos históricas
Muitas vezes, por falta de tempo, as empresas maiores operavam exatamente com os ônibus e cores das empresas recém-encampadas. Muitos destes veículos, velhos e já dando sinais de agonia, seriam em breve trocados, então, não valeria a pena pintá-los. Esses veículos rodaram por alguns meses e imagens deles são uma relíquia. E uma destas relíquias trata-se da foto que abre este post do Boletim Técnico da CET, edição número 22, de 1979, afortunadamente guardada pelo pesquisador William de Queiroz, desenhista, que no site Guarubus resgata a memória das pinturas antigas de ônibus da Capital Paulista, Guarulhos e região do ABC.
De acordo com explicações de Carlos Coelho, outro pesquisador, que sempre colabora com seus conhecimentos, a imagem acima mostra em destaque um Striulli Gran Luce, da então encampada VUP – Viação Urbana Penha, que prestava serviços em parte da zona Leste da Capital Paulista pelo menos desde os anos de 1950.
Na época desta foto, o veículo, assim como a linha, que eram da VUP, já estavam em poder da Empresa Auto Ônibus Penha São Miguel, fundada nos anos de 1940 e que se tornou uma das principais viações que serviram a Capital Paulista. Na época da reorganização dos transportes, a Penha São Miguel assumiria o lote de número 104.
A imagem é rara, pois, de acordo com Carlos Coelho, a Penha São Miguel rodou pouco tempo com os ônibus “herdados” da Viação Urbana Penha. Eram veículos velhos que precisavam ser trocados e os custos para pintar tudo (processo que era mais caro nesta época) não valiam a pena em carros (ônibus) que seriam dispensados.
Carlos Coelho relembra também que a Empresa de Ônibus Penha São Miguel também rodou com um Monobloco O 321, Mercedes Benz, fabricado logo no início dos anos de 1960. Ele se recorda até mesmo do prefixo do veículo: 104 099.
Da Viação Urbana Penha, a Empresa Penha São Miguel ficaria apenas com alguns Caio Gabriela, adquiridos em meados dos anos de 1970. Na época, logo após serem pintados, esses veículos poderiam ser identificados como ex- da VUP por serem um pouco mais compridos e antigos em relação aos veículos da própria empresa. Alguns Striulli Gran Luce chegaram a ser pintados no sistema Saia e Blusa, por exigência do poder público municipal, porém foram poucos veículos e rodaram pouco tempo. Aliás, a Empresa de Ônibus Penha São Miguel foi um festival de cores nos anos de 1970, até adotar definitivamente o Padrão Saia e Blusa.
No ano de 1975, lembra Carlos Coelho, a empresa comprou sete ônibus da Viação Jardim Miriam, também extinta na reorganização do “Saia e Blusa”. Eram veículos semi-novos, Caio Bela Vista,  do tipo Máscara Negra, com um material de fibra e plástico preto que envolvia a grade do motor dianteiro e o conjunto óptico, daí o apelido. Não era período de transição, como três anos depois, em 1978, mas a empresa circulou com os veículos exatamente com as cores e padrão visual da Viação Jardim Miriam. Foram meses assim.
Relaxamento por parte da Penha São Miguel?
Não necessariamente. A empresa expandia-se assim como as necessidades dos passageiros. A cidade crescia. Se nos anos de 1920 já era um grande atrativo para migrantes de toda a parte do Brasil, mesmo sem a consolidação total do processo de urbanização e com a lento processo de instalação das indústrias, imagine em 1970, quando o setor industrial, de diversos segmentos, e da construção civil, estavam em pleno ritmo de ascensão, apesar das dificuldades econômicas.
A verdade é que não havia tempo e economicamente não era viável para as empresas de ônibus comprarem os veículos, e deixá-los nas garagens até a pintura ter sido concluída. As compras eram para ontem, principalmente nas empresas maiores que absorviam as menores.
Na primeira foto, logo atrás do Striulli ex Urbana Penha, é possível identificar, na faixa do meio dois ônibus já com a nova padronização da Empresa Penha São Miguel (um Caio Gabriela e um Caio Bela Vista Máscara Negra). Na faixa ao lado da calçada, vê-se um Caio Jaraguá, provavelmente com a pintura antiga da Alto do Pari, e ao fundo da foto, na faixa esquerda um Monobloco Mercedes Benz com as tradicionais cores azul e creme da CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos. Tudo isso na Avenida Rangel Pestana.
Na segunda imagem, área do Largo da Concórdia, também de 1979, Gabrielas da Penha São Miguel (amarelos), Monoblocos da Alto do Pari, na faixa da direita, atrás de um trólebus branco Massari da CMTC. Ao fundo da foto, atrás dos amarelos, um Marcopolo Veneza da Mogi das Cruzes.
Na terceira e última foto, três monoblocos na Rangel Pestana, em 1979, já com as cores do Padrão Saia e Blusa. Da esquerda para a direita der quem está lendo vemos as empresas: Santo Estevão, Leste Oeste e Alto do Pari.
FOTO 3 SAIA E BLUSA
A mudança beneficiou a população, mas em especial os grandes empresários.
No sistema Saia e Blusa, a cor da saia do ônibus, que é a parte abaixo do friso ao longo da carroceria, na altura das rodas dos veículos, determinava a região atendida. A cor da blusa (parte acima deste friso) poderia ser escolhida pela empresa operadora
Cor da Saia - Região
Marrom – Zona Norte (Vila Maria, Vila Guilherme, Santana e Tucuruvi)
Amarelo – Zona Leste (Penha, Cangaíba, Erm. Matarazzo, São Miguel Pta. e Itaim Paulista)
Rosa – Zona Sudeste/Zona Leste (Moóca, Tatuapé, Vila Prudente, Vila Matilde, Itaquera e Guianazes)
Vermelho - Zona Sul (Indianópolis, Santo Amaro e Capela do Socorro)
Azul Escuro – Zona Sul/Zona Sudeste (Aclimação, Ipiranga e Saúde)
Azul Claro – Zona Sul (Vila Mariana e Jabaquara)
Laranja – Zona Sudoeste (Butantã e Morumbi)
Verde Escuro – Zona Oeste (Lapa, Perdizes, Perus e Pirituba)
Verde Claro – Zona Noroeste (Casa Verde, Limão, Freguesia do Ó, Vila Brasilândia e Jaraguá)
Empresas que operaram no esquema Saia e Blusa
Lote Empresa
101 Auto Viação Brasil Luxo Ltda.
102 Auto Viação Nações Unidas Ltda. e Empresa Auto Ônibus Parada Inglesa Ltda.
103 Empresa Auto Ônibus Alto do Pari Ltda.
104 Empresa Auto Ônibus Penha São Miguel Ltda.
105 Consórcio Leste-Oeste (Empresa de Ônibus Viação São José Ltda. e Viação Leste-Oeste Ltda.)
106 Auto Viação Tabú Ltda. e Auto Viação Pompéia Ltda.
107 Consórcio Aricanduva (Empresa de Ônibus Santo Estevam Ltda. e Empresa Auto Ônibus Vila Carrão Ltda.)
108 Consórcio Sudeste (Companhia Auxiliar de Transportes Coletivos e Viação Urbana Transleste Ltda.)
109 COOPERNOVE (Empresa Paulista de Ônibus Ltda. e Empresa de Ônibus Vila Ema Ltda.)
110 Empresa Auto Viação Taboão S.A. e Auto Viação São João Clímaco Ltda.
111 Viação Bristol Ltda.
112 Consórcio Jabaquara (Viação Paratodos Ltda. e TUPI – Transportes Urbanos Piratininga Ltda.)
113 Viação Canaã Ltda. e Viação e Garagem Mar Paulista Ltda.
114 Viação Bola Branca Ltda. e Viação N. Sra. do Socorro Ltda.
115 Auto Viação Jurema Ltda.
116 Empresa São Luís de Viação Ltda.
117 Consórcio Tânia-GATUSA (Viação Tânia de Transportes Ltda. e GATUSA – Garagem Americanópolis de Transportes Urbanos S.A.)
118 Viação Bandeirante Ltda. e Viação Auto Ônibus Santa Cecília Ltda.
119 Viação Castro Ltda. e Viação Santa Madalena Ltda.
120 Viação Gato Preto Ltda./Viação Gato Branco Ltda./Empresa de Ônibus Vila Ipojuca Ltda.
121 Viação Santa Brígida Ltda. e Empresa Auto Ônibus Vila Pirituba Ltda.
122 TUSA – Transportes Urbanos Ltda.
123 Viação Brasília S.A.
O sistema Saia e Blusa foi o mais duradouro até o momento na cidade de São Paulo. Ele foi de 1978 até 1991, quando a então prefeita Luiza Erundina decide “municipalizar” o sistema de ônibus. A Prefeitura administrava os recursos obtidos nas catracas e remunerava as empresas prelos serviços prestados, o chamado quilômetro rodado.
Mas até mesma a classificação das regiões tomou como base o sistema de 1978, que muito mais que mudar as cores dos ônibus, reorganizou toda a prestação de serviços e São Paulo e consolidou grandes grupos empresariais, atuantes até hoje.
Adamo Bazani, busólogo e jornalista da CBN.

Nenhum comentário:

Postar um comentário